Sugestão de leitura: A pátria e seus salvadores / Por Tião Martins

1 de novembro de 2013
31 de outubro de 2013
Crônicas
Os cidadãos perplexos, que nasceram e cresceram aqui e nem por isso conseguem entender o que move o Brasil, têm toda razão, quando dizem que um suíço, inglês, chinês ou vietnamita jamais compreenderá nosso país.

O Brasil não foi mesmo feito para principiantes. E, de tempos em tempos, até profissionais calejados se surpreendem com as mágicas do Planalto, dos seus associados e daqueles que aprenderam com esses mestres.

Falta grana para a saúde, educação e segurança, por exemplo, mas nunca faltam “incentivos financeiros” a heróis nacionais como Eike Batista, que ainda ontem tinha acesso direto aos cofres federais do BNDES, pintava um X em tudo e hoje confessa que não pode pagar.

É mais um episódio que fica entre amigos.

Em que outro país um único sujeito conseguiria sacar tanto dinheiro do governo e, no dia seguinte, anunciar que os bilhões foram para o espaço? Acertou na mosca quem disse que só acontece no Brasil de Dilma.

E agora vem do Planalto a mais quente novidade: chama-se “narrativa estratégica” e é um primor de imaginação.

Trata-se de uma cerimônia a portas fechadas, na qual a presidente da República recebe dois ou três ministros de cada vez e ouve deles notícias de algum projeto esquecido, mas que pode ser requentado e usado como tema na campanha da reeleição.

Como dizem os capixabas, Dilma Rousseff conduz o país “meio à brinca, meio à vera”.


A linguagem metafórica que o Planalto e os políticos usam com tanto brilho agora está sendo adotada também por artistas que escondem sua vida pregressa dos biógrafos curiosos.

O arrependido Roberto Carlos, por exemplo, com a cara mais triste deste mundo, jura que não defende a censura prévia, como dizem os desafetos. Só quer ter “conversas e ajustes” com quem investigar sua vida.

Já o Gilberto Gil, menos cru que RC em questões de interesse público, pois já foi até ministro e discípulo de Lula, provou ser mais criativo e atento às lições do Planalto.

Segundo ele, ao defenderem sua privacidade, os artistas prestam relevante serviço aos brasileiros comuns, que não dispõem do mesmo acesso à mídia para proteger o lado secreto de suas vidas.

- Quem sabe de mim sou eu – conclui o líder baiano.

Inverteu tudo, esse bravo democrata. A partir de agora, os grandes campeões da democracia e da liberdade são o próprio Gil e mais Chico, Erasmo, Roberto, Caetano e a deserdada infeliz, Paula Lavigne.

Algo semelhante acontece no Congresso Nacional.

Quando o governo necessita desesperadamente de aprovar algo intragável, há uma sessão da tarde especial com deputados e senadores, para “conversas e ajustes”. E todos saem contentes, felizes, desse baile de máscaras. Na visão deles, trata-se de prática avançada e republicana, ou seja, “ninguém fala demais e fica tudo entre nós”.

Na sua linguagem bem característica, o experiente Luís Inácio é a mais brilhante expressão dessa narrativa estratégica que caracteriza o cenário político brasileiro:

- Se eles me encherem o saco, eu volto em 2018 – anuncia publicamente o iluminado. Só não diz quem são “eles” e nem o que significa “encherem o saco”. Mas os fiéis seguidores adoram. Eles entendem o seu profeta (Tião Martins).

Fonte:
http://tiaomartinsbh.com/blog/2013/10/31/a-patria-e-seus-salvadores/

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